
FMC reforça estratégia para soja e milho com nova liderança focada em inovação e proximidade técnica
junho 25, 2026Dados da MOTOMCO mostram que a umidade responde por 58,3% dos descontos aplicados na recepção da soja, evidenciando os desafios do pós-colheita no Brasil
O agronegócio brasileiro viveu uma revolução tecnológica dentro da porteira nas últimas décadas. GPS, agricultura de precisão, drones, sensores e softwares de gestão transformaram a forma como o produtor planta, monitora e colhe. Agora, uma nova fronteira de competitividade começa a ganhar espaço: o que acontece com o grão depois que ele sai do campo. Com margens mais apertadas e mercados cada vez mais exigentes, etapas como secagem, armazenagem e monitoramento da umidade passaram a influenciar diretamente a rentabilidade da safra. Ainda assim, parte do setor segue tratando o pós-colheita como uma atividade operacional, e não estratégica.
Segundo a MOTOMCO, empresa especializada em tecnologia para monitoramento de umidade e qualidade de grãos, aproximadamente 58,3% dos descontos aplicados na recepção da soja estão relacionados ao excesso de umidade, um parâmetro que pode ser acompanhado e gerenciado pelo produtor antes mesmo da entrega da carga.
Na Região Sul, 63,5% das cargas de soja são recebidas com teores entre 12% e 15% de umidade, próximos ao padrão de referência de 14%. Já no Centro-Oeste, onde a colheita frequentemente coincide com o período chuvoso, 48,3% das cargas chegam às unidades armazenadoras com umidade superior a 17,8%, exigindo secagem e ampliando os descontos aplicados na classificação.
Em anos de adversidades climáticas, os impactos podem ser ainda maiores. Enquanto as impurezas normalmente permanecem dentro dos limites aceitáveis graças à evolução tecnológica das colhedoras, os índices de grãos avariados podem ultrapassar 30% da carga em algumas regiões. Na prática, toda essa água excedente é descontada diretamente do peso líquido entregue pelo produtor.
Em muitos casos, porém, o produtor sequer sabe que está exposto a esse tipo de perda. Sem ferramentas de monitoramento, a decisão sobre o momento de colher, secar ou armazenar continua sendo baseada na percepção visual ou na experiência acumulada ao longo dos anos, sem dados precisos sobre a real condição dos grãos.
Para o engenheiro agrônomo da MOTOMCO, Roney Smolareck, o que impede hoje a adoção de tecnologias no pós-colheita já não é mais uma barreira financeira, mas sim cultural.
“Em muitos casos, a resistência está relacionada ao modelo de gestão. Empresas e propriedades que ainda operam com estruturas mais tradicionais tendem a adotar novas tecnologias de forma mais lenta.”, explica.
Segundo ele, essa diferença fica evidente nas novas fronteiras agrícolas brasileiras. Regiões como o MATOPIBA já contam com uma geração de produtores e gestores que iniciou suas operações com foco em eficiência operacional, integração de sistemas e gestão baseada em dados.
“Esses produtores já nasceram em um ambiente tecnológico. Eles entendem que pequenas perdas durante a secagem, armazenagem e movimentação dos grãos podem representar impactos financeiros significativos ao final da safra”.
Essa percepção, no entanto, vem avançando também entre as propriedades mais tradicionais. À medida que o foco do produtor deixa de ser apenas produtividade e passa a incorporar indicadores de rentabilidade, cresce a compreensão de que decisões relacionadas às etapas do pós-colheita e comercialização podem impactar o resultado financeiro tanto quanto o desempenho obtido na lavoura.
Um exemplo dessa mudança de mentalidade é o de Marcos Marques, produtor de Rondon do Pará, que cultiva cerca de 1.300 hectares de soja, milho, sorgo e gergelim. Assim como aconteceu com seu pai e seu avô, ele passou boa parte da carreira concentrando sua atenção na produção dentro da porteira, sem grande visibilidade sobre o que acontecia com os grãos após a colheita.
Há quatro anos, decidiu investir em armazenagem própria e em tecnologias de monitoramento de umidade e temperatura. Com isso, passou a tomar decisões baseadas em informações geradas dentro da própria fazenda, reduzindo a dependência de medições realizadas por terceiros.
“Depois que eu comprei o silo e coloquei mais tecnologia voltada pro pós-colheita na fazenda, pude perceber o tanto que eu perdia lá para trás. Não dá nem para mensurar o tamanho do ganho, mas a diferença é muito grande”, relata.
Para ele, o principal benefício foi o controle sobre as informações e o aumento da segurança comercial nas negociações com compradores e portos.
“Já tivemos situações em que a carga chegou ao porto e os números não batiam. Como temos equipamentos aferidos e laudos próprios, conseguimos comprovar a qualidade do produto. Isso traz muito mais segurança para negociar.”
A preocupação crescente com o pós-colheita também está ligada às exigências dos mercados consumidores, que demandam cada vez mais rastreabilidade e preservação de características específicas dos grãos. Na soja, o desafio está em preservar teores de proteína e óleo. No milho e no sorgo, a manutenção do amido é fundamental para setores como alimentação animal e produção de etanol. No trigo, a qualidade da farinha depende diretamente das características tecnológicas do grão. Já na cevada, uma secagem inadequada pode comprometer o poder germinativo necessário para a maltagem, reduzindo significativamente seu valor comercial.
Nesse cenário, o uso de dados em tempo real vem substituindo controles manuais em toda a cadeia de armazenagem. Sensores conectados, Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial e plataformas integradas de monitoramento permitem acompanhar indicadores críticos de qualidade e antecipar riscos operacionais.
Segundo Smolareck, essa transformação já pode ser observada na própria estrutura das unidades armazenadoras.
“O que antes era uma simples sala de classificação, hoje muitas vezes funciona como um laboratório de qualidade equipado com computadores, equipamentos integrados e sistemas automatizados de coleta e processamento de dados. Há alguns anos, muita gente questionava a necessidade de monitorar a lavoura com GPS, mapas e sensores. Hoje isso faz parte da rotina das propriedades mais eficientes. Com o pós-colheita, estamos vendo um movimento semelhante. A diferença é que agora a disputa acontece depois que o grão sai do campo”, finaliza.




