irrigação/ Daniel Zandonadi

Sistemas eficientes e manejo correto de irrigação contribuem para o uso racional da água

Desde o final do ano passado, o Distrito Federal está enfrentando uma crise hídrica, em virtude do baixo nível dos reservatórios que abastecem a região e, na última semana, o governo local decretou situação de emergência nos próximos 180 dias. O reservatório do Rio Descoberto, que apresenta a situação mais crítica – com índice inferior a 20% da capacidade – preocupa também o setor agrícola, já que a maioria das propriedades rurais abastecidas por esse manancial produzem hortaliças, que são espécies bastante exigentes em água.

Para contribuir com o enfrentamento da crise, o produtor rural deve optar por sistemas de irrigação mais eficientes e fazer o manejo adequado de irrigação. “O uso racional da água de irrigação é imprescindível para evitar o desperdício desse insumo nas áreas de produção agrícola”, ressalta o agrônomo Marcos Braga, pesquisador da Embrapa Hortaliças e especialista em Irrigação e Drenagem, ao sinalizar que os sistemas localizados como a irrigação por gotejamento são mais econômicos e eficazes.

O mulching para cobertura do solo, com filmes plásticos ou resíduos orgânicos como palha, também é uma prática recomendada para a economia de água, já que conserva a umidade do solo e diminui a frequência das regas. “O uso do mulching, aliado ao gotejamento, aumenta a eficiência no uso de recursos hídricos, com redução da perda por evaporação em até 40%”, estima Braga. Além disso, o mulching funciona como uma barreira e minimiza a ocorrência de plantas daninhas, o que dispensa a necessidade de capinas que poderiam causar cortes nas mangueiras de plástico do gotejamento.

De acordo com o pesquisador, mais do que investir em sistemas mais eficientes, é preciso atentar para a manutenção dos equipamentos que, com o passar do tempo, podem conter fissuras ou outros danos e, assim, causar vazamentos. Ele ainda acrescenta que sistemas de irrigação por superfície como sulcos ou inundação deveriam ser substituídos porque são ineficientes em relação ao uso da água e apresentam um agravante: se mal manejados, podem contaminar rios e córregos com águas que carregam partículas em suspensão de solo ou produtos químicos.

Irrigação na hora e na medida certa
Além dos cuidados com o sistema de irrigação, o manejo correto também é indispensável para o uso racional da água porque, ainda que se tenha um bom sistema, se o produtor não souber dimensionar a quantidade de água, o sistema não vai atingir seu potencial de economia.

“A irrigação representa uma fatia pequena no custo de produção do agricultor, quando comparada à adubação, mão de obra e outros gastos. Por isso, na maioria dos casos, o erro é sempre por irrigar em excesso”, contextualiza Braga ao enfatizar que, além do desperdício, uma quantidade exagerada de água pode ser mais prejudicial que benéfica, visto que desconsidera a demanda hídrica de cada cultura para se manter em uma situação de conforto.

“No Distrito Federal, os solos são bem argilosos e, com excesso de água, podem encharcar e comprometer a absorção dos nutrientes. As raízes das plantas devem respirar para captar água e nutrientes”, aponta. A irrigação em excesso também favorece a incidência de doenças e compromete o desenvolvimento porque pode causar a lixiviação de adubos e, com menor aporte de nutrientes, a planta fica menos vigorosa e mais suscetível aos microrganismos nocivos.

Para auxiliar o produtor na medida exata de água, existem sensores de irrigação com diferentes níveis tecnológicos, bem como cálculos que levam em consideração fatores como temperatura, precipitação, evapotranspiração, umidade do solo, entre outros. “É essencial treinar nossos técnicos da extensão rural e produtores para que estejam habilitados a fazer o manejo adequado da irrigação e para que pratiquem o conhecimento disponibilizado”, sinaliza.

No horizonte da pesquisa agrícola
Em relação às hortaliças, cuja produção depende muito da irrigação, as pesquisas estão caminhando em direção ao desenvolvimento de novas cultivares mais resistentes ao déficit hídrico, ou seja, que produzam igualmente bem mesmo com uma menor quantidade de água.

“Temos que considerar que a maioria das espécies de hortaliças é originária de regiões de clima temperado e que, ao longo do tempo, evoluíram e foram selecionadas em ambientes com muita disponibilidade de água. Por isso, além da adaptação ao clima tropical, em cenários de escassez desse recurso, precisamos contar com a engenharia genética para dispor de materiais que suportem melhor o estresse hídrico sem baixar a produção”, problematiza Braga.

Outras linhas de pesquisa buscam se antecipar às projeções climáticas para as próximas décadas e estudam a obtenção de cultivares que consigam produzir em quantidade e qualidade mesmo irrigadas com água salobre ou, ainda, com água residual.

Reúso de água na agricultura
Entre as medidas sugeridas para avançar no sentido da sustentabilidade dos sistemas de produção, está o reúso de água de esgoto tratada para irrigação de lavouras. “Diante de situações críticas de escassez e racionamento, devemos propor soluções que possam amortizar os efeitos sem comprometer a continuidade das atividades agrícolas”, comenta o engenheiro ambiental Carlos Eduardo Pacheco, pesquisador da Embrapa Hortaliças.

No Brasil, faz-se o tratamento da água de esgoto que é, então, devolvida para o corpo d’água. “Poderia ser dado um uso mais nobre para essa água tratada, como a irrigação para produção de alimentos”, pondera Pacheco. “Quando se aproveita água residual evita-se a retirada de água do corpo d’água e, por consequência, a perda que ocorre na rede de distribuição”, acrescenta.

Pela lei que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas, contudo, em situações de escassez, o uso prioritário é o consumo humano e a dessedentação de animais. Nesse sentido, a água residual poderia ser uma garantia de irrigação de culturas agrícolas em tempos de crise hídrica e de competição pelo uso da água.

A captação e o armazenamento de água de chuva também são meios alternativos para assegurar a disponibilidade de água para irrigação em época de desabastecimento. Segundo o engenheiro ambiental, se não houver mecanismos de reserva de agua, principalmente no verão, há alta probabilidade de faltar água no período de seca.

A resposta está na chuva!
Em relação à crise hídrica no Distrito Federal, nos últimos anos, estavam sendo observadas chuvas abaixo da média, dados que coincidem com o levantamento obtido na estação meteorológica instalada nos campos experimentais da Embrapa Hortaliças, unidade de pesquisa localizada a 40 km da área central de Brasília.

Pacheco comparou a precipitação média de uma série histórica de trinta anos, no período compreendido entre 1971 e 2001, com dados coletados na década imediatamente posterior, entre os anos de 2002 e 2012. Os resultados apontam que, na década mais recente, houve uma concentração de chuva no verão, especialmente em janeiro e fevereiro, acima da média histórica. Porém, em todos os outros meses ocorreu uma redução nos índices pluviométricos, fator que pode ter impactado ao longo do tempo e contribuído para a atual escassez de água.

“A análise dos dados da série histórica mostrou que antes o período de seca ficava concentrado em três meses, com auge em julho, sendo junho o mês de entrada no período seco e agosto o mês de recuperação”, esclarece o pesquisador. “Na década posterior, notamos que a seca tem se prolongado por cinco meses do ano, de maio a setembro”.

O comportamento observado pelo pesquisador a partir dos dados coletados na estação da Embrapa Hortaliças é idêntico ao que se registrou em outras estações meteorológicas do Distrito Federal e em estatísticas divulgadas por órgãos governamentais.

Sobre as implicações dessas mudanças nos índices pluviométricos para as bacias hidrográficas que abastecem as áreas produtoras de hortaliças no DF, na leitura do pesquisador, os dados revelam uma aparente tendência de forte concentração de chuva em um período curto de tempo, o que aumenta a ocorrência de escoamento superficial e diminui o tempo de detenção da água dentro da bacia.

“Para aumentar o tempo de detenção, em um cenário ideal, são necessárias chuvas constantes e moderadas para permitir que se tenha tempo suficiente para a água infiltrar no solo, atingir o lençol freático e abastecer o rio”, explica Pacheco. Não se pode afirmar com exatidão as causas das alterações no regime de chuvas, mas segundo o pesquisador, além da possibilidade de haver influência das mudanças climáticas globais, outros fatores podem estar associados como o processo de urbanização e o uso inadequado do solo.

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